segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sobre escrever 3

Há quem escreva por obrigação. Quem tenha transformado a escrita em ofício – como eu desejo isso! Tem os que consideram escrever uma arte ou chamam a escrita de vício. Para mim, escrever é liberdade.
Minha escrita é viva. Voraz. Não há grilhões capazes aprisiona-la. Faz parte de quem eu sou desde sempre, elemento essencial da minha identidade – se passo muito tempo sem escrever, me perco, sequer me reconheço.
Quando preencho o vazio da tela ou da folha com palavras, eu abro portais para outros mundos existentes apenas na minha alma. Onde inúmeras versões de mim mesma sopram ideias em meus ouvidos, ansiando ganharem voz através de meus dedos. É uma sensação única materializar seus sussurros em frases, contos, poemas. Mas é torturante quando decidem me contar as histórias mais interessantes enquanto estou embaixo do chuveiro – acontece com certa frequência.
Percebo agora se tratar de uma relação contraditória, tendo em mente o quanto escrever se tornou uma necessidade ao longo da minha existência. Talvez se pergunte como posso afirmar que a escrita me liberta sendo tão dependente dela. Bom... Da mesma forma que pássaros dependem de suas asas para voar, é a melhor explicação.
“E ses”, devaneios, confissões, escrevendo deixo vazar tudo que exacerba dentro de mim. E, veja bem, essa não é a melhor parte. O mais impressionante na escrita é o poder de tocar outras pessoas. Um escritor pode entrar na sua casa, deitar em sua cama e te transportar mesmo para os lugares mais inóspitos – ah, não se engane, admita para si mesmo que irá de bom grado! Boas histórias te apresentam ideias, pessoas, lugares, criam pontes entre seus sentimentos e as palavras. Sabe aquele pensamento: “eu poderia ter escrito isso!”? Quem nunca?

É a terceira vez que escrevo sobre minha relação com esse verbo tão querido: escrever. Essa definição nunca muda. Escrever, para mim, é ser livre de verdade.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Rosa dos Ventos

Harbor Azul, 20 de Junho de 2002.

      Textura. Não é inusitado como, num espaço de cerca de dez passos, o solo pode ter vários toques diferentes? É algo inexplicavelmente mais perceptível em Harbor. Não precisa muito esforço! Basta chegar na praça central, tirar os sapatos, fechar os olhos e andar em qualquer direção. Poderá sentir viscosidade, suavidade, aspereza, umidade e maciez. É como redescobrir o tato.
      Se for inverno, não haverá empecilhos para a caminhada às cegas. A baixa temporada tem suas vantagens – poucas pessoas, mais tranquilidade, mais silêncio, temperaturas calorosas na medida. As cores permanecem vibrantes, tanto quanto os olhares das mulheres cruzando as vielas. Suas risadas reverberam por salas, cozinhas, varandas, contaminando tudo com uma alegria de viver cuja realidade não justifica.
      Por falar em cozinhas, os sabores dessa terra são indescritíveis. É claro que a maior parte dos ingredientes chega junto com os barcos, na primeira hora da manhã. A maresia toma para si os narizes a ponto de nausear estômagos fracos. O frescor dos alimentos dá outro sabor a pratos tão conhecidos e novas combinações, como o abacaxi com queijos e camarão, arrebatam todos os paladares. Aqui é comum ter frutas em todas as refeições do dia. Não reclamo, só tenho a agradecer à vida.
      A maior parte dos homens vive do mar e de seus frutos. Mas há carpinteiros, artesãos, comerciantes, cabeleireiros, mergulhadores. Estes últimos são como tritãos, tem fala ritmada feito música e exalam um feromônio-bambeador-de-pernas-de-mocinhas. Arrancam suspiros das nativas e, muitas vezes, gemidos das turistas. Sim, você entendeu! Não, não me afetam. Talvez porque o fundo do oceano já era minha segunda casa antes de chegar. Ter seu próprio brevê é como ter guelras e um aviso de afaste-se.
      Falando no oceano, a profusão de cores e vida é ainda mais apaixonante a partir de dez metros de profundidade. Os recifes abrigam berçários os quais, enquanto estou na região, brigo para proteger. A variedade de espécimes poderia me ancorar no futuro. Quem sabe?
      No final do dia, quando o Sol pinta absolutamente tudo com tons do amarelo ao vermelho por horas, atravesso calçadas, meneando a cabeça para os cumprimentos efusivos dos moradores, rumando firme para a praia. Sentada na areia, escuto o soar dos sinos de uma igrejinha distante. Vejo os jangadeiros retornarem em seu ritmo suave, ao balanço das ondas brilhantes acobreadas. Um aroma misto de flores, peixes na brasa e água de coco não me permite esquecer de onde estou. Mas o pôr-do-Sol sempre traz o passado à tona. É impossível não pensar em você...
      Quando a Lua chega, prateando o horizonte, mergulho mais uma vez nesse mar enorme, quente e transparente, lavando a alma dessa nostalgia ressurgente – e desejo que seja o último do dia, rezo para a insônia não me guiar de volta.
      Saio da praia quando os jovens chegam, barulhentos, perfumados, montando mesas de areia para um luau que só termina quando a Lua se despede. Um prazer que já não me apetece.
      Escrevo-te de um mini bangalô aconchegante, com cama no chão, porém macia, chuveiro quente e vista para as estrelas de todos os lados. Estou em Harbor Azul há semanas, significando que, quando receber esta carta, já estarei novamente na estrada. Segue no envelope o endereço do paraíso e registro aqui minha provocação para conhece-lo. Viverias bem nesse lugar, certeza. Ao menos enquanto essa calmaria durar – sabemos que esses oásis da nossa terra não permanecem anônimos por muito tempo.
      Quando chegar ao novo destino, seja qual for, entro em contato novamente. Preciso confessar que meu ano sabático tem gosto agridoce. Meu espírito cigano tem se divertido e apaziguado. Mas eu sinto sua falta, exatamente como lhe disse que sentiria.
      Por favor, cuide-se.

Com carinho,
Sua Sereia.

P.s.: Gravei na pele, como sugeriu tempos atrás, uma rosa dos ventos. Ao invés do Norte escrevi “prometo”, a última palavra que dissemos um ao outro. Está no tornozelo direito. Achei que deveria saber.

domingo, 3 de julho de 2016

Ainda Seu Jair...

- É Cecília Meirelles, doutor! Tem tanto poema bonito, tanta cor, tanta música! Por que desperdiçar o espaço das paredes com puro branco se podemos encher de vida?
                Essa foi a primeira vez que encontrei o senhor Jair, 70 anos de idade, mulato de estatura mediana, cabelo bem grisalho e grossas lentes sobre os olhos. Fui levado a sua casa pelo seu neto, Samuel, muito preocupado com o comportamento incomum do avô:
- Sempre foi tão metódico com tudo, doutor! Ele era do exército, sabe? Criou a gente com muita disciplina, muitas regras. E de repente tá tudo ao contrário!
                Apesar dos exames limpos, o rapaz permanecia atormentado com a ideia do avô ter sofrido algum tipo de AVC ou estar sofrendo alguma demência senil. Porém pensava bem mais rápido que falava e estava muito difícil acompanhar seu relato. Logo decidi:
- Tudo bem, garoto. Vamos marcar uma visita, quero conhecer seu avô.
                Eu não estava bem preparado para nosso primeiro encontro. Esperava mais um quadro corriqueiro de Alzheimer, não aquele cenário. Não uma síndrome tão rara.
- Como sabe que sou médico, seu Jair?
- hahahaha Ser velho tem suas vantagens! – soltou, animado, antes de me estender a mão suja de tinta – O senhor saber meu nome, qual é o seu?
- Ary. Prazer em conhece-lo.
- Na verdade será um desperdício de tempo, seu Ary. – virou-se novamente para a parede – O senhor se importa se eu continuar pintando enquanto falamos?
- Claro que não.
                Eu olhava em volta encantado. Todas as paredes da sala estavam cobertas de cores, como se alguém tivesse estourado balões cheios de tintas. Versos de músicas, de poemas, pedaços de histórias cobriam outros espaços. Os livros estavam completamente fora de posição. Alguns passos adiante e podia ver o corredor ocupado por peças de quebra-cabeças:
- Ah, o senhor desculpe! Estava brincando hoje de manhã, se tirasse as peças daí me perderia. – falou enquanto subia uma escada – Deu bastante trabalho juntar tudo isso assim.
- Quantos quebra-cabeças têm aqui, seu Jair? Quatro?
- Três! São de quando o Samuca era criança... – e se perdeu na memória.
- Boas lembranças?
- As melhores! E as piores também.  – encarei-o, curioso – 'Cê sabe, seu Ary, eu segui carreira militar a vida inteira... E achava que crianças eram como recrutas, precisavam apenas de disciplina e firmeza. – continuou, com pesar – Samuca sempre foi uma criança ativa, montava os quebra-cabeças num estalo, logo enjoava deles. Então, quando não tinha mais o que fazer, ele misturava as peças e tentava transformar num desenho só.
- É isso que está fazendo?
- Sim! E como é divertido, doutor! Irritante também, quando nada encaixa. Mas, aí, eu largo tudo e vou colorir outra parede, fazer colagens... Viu minhas colagens?
                Empolgado, me levou à cozinha. A geladeira estava coberta de fotos de lugares do mundo inteiro, um mosaico perfeito:
- São lugares que conheceu?
- Não. São a minha velha... – e me puxou para trás. Quanto mais me afastava, mais nítido ficava o rosto de uma mulher. Olhei para ele, maravilhado, mas Jair já recitava para a imagem algo que parecia ser votos matrimoniais.
                Parei de falar, passei a só observar e anotar. Seu Jair não tinha sinais de perda de memória, capacidade motora, audição nem fala. Se mexia melhor do que eu, mesmo sendo mais velho, um vigor invejável. De vez em quando minhas anotações eram interrompidas por suas gargalhadas, enquanto relatava travessuras dos netos ou cantarolava alguma música. Seu Jair me impressionava.
                Perdi a noção da hora enquanto percorria a casa, apreciando todas as mudanças, todas as cores, todos os brinquedos desenterrados do porão. Samuel, o neto, me encontrou afundado em uma poltrona com álbuns antigos de família no colo. Eu comparava o passado da casa com o presente, impressionado:
- Então, doutor, ele será internado? Ou vamos fazer alguma medicação? Qual o problema?
- Nenhum, Samuel.
- Ahn?! Mas como é possível?! O senhor prestou atenção em tudo que ele fez com essa casa? Vovó enlouqueceria...
- Samuel, os exames do seu avô não acusaram nada porque não há o que acusar.
- Eu não aceito isso! Como ninguém consegue descobrir o que aconteceu com ele?
- Respira garoto, devagar – me levantei -, puxa o ar pelo nariz, solta pela boca... De novo... Agitado assim, você que acabará internado. Sente-se aqui na poltrona. – respirei devagar – Samuel, você foi me procurar lá na clínica porque sou referência na cidade. E esse é meu diagnóstico: seu avô não está ficando maluco nem teve um derrame. É bem verdade que ele não está normal, mas, na idade dele, Delirium não atrapalha em nada. – ele me olhava, ansioso – Olhe, rapaz, entendo sua situação. Morou aqui a infância toda, se despediu da avó há alguns meses, tem medo de perder o avô. Eu escutei toda a sua história. E a de seu Jair também. Ele encontrou caixas muito antigas no porão, com o hábito da organização. Todas as memórias causaram uma reflexão involuntária e uma ruptura de personalidade.
- Então é grave? - questionou, abaixando a cabeça.
- Ah, Samuel... Quem dera tivéssemos todos essa ruptura, de preferência mais cedo! Seu avô percebeu, um tanto tarde, que a ordem em excesso rouba momentos, rouba alegria. Pelos sintomas que identifiquei, seu Jair despertou em si uma síndrome excêntrica e incomum. Basta alguns momentos de monotonia para se sentir sufocado, agitado, com uma necessidade absurda de se divertir, de quebrar a ordem. Entre as coisas que ele encontrou havia recortes de revistas da sua avó, tintas coloridas, bexigas...
- Vovó pintava quadros, era sua terapia...
- Pois é. A caixa de material dela foi a válvula de escape que seu avô encontrou no auge da crise. É o jeito dele de lidar com a perda da esposa. Não vai mata-lo. Nem põe ninguém em risco, além dos livros rasgados e das paredes. – peguei meu receituário – O tratamento é simples: mantenha seu avô abastecido de cores, peças de montar, músicas, livros. E não exija muito de um viúvo septuagenário. Não é melhor que seu avô termine a vida feliz, rindo? – o garoto coçava a cabeça – O nome da síndrome é Delirium. Não será fácil encontrar bibliografia a respeito, mas o google está aí pra isso e sei que você não descansará enquanto não encontrar. Aqui está minha recomendação, é bem simples, mas quero acompanhar seu avô de perto. Então nos veremos semanalmente, aqui ou no consultório, o que for melhor pra vocês. Estamos entendidos? - bati em seu ombro e saí.
- Samuca é um ótimo neto! – falou seu Jair, quando eu já me dirigia para a saída, deixando um atônito rapaz estatelado no corredor – Muito preocupado, muito responsável... Até demais! Culpa minha. Mas um menino incrível!
                Olhei para a parede na qual o velho pintava a letra “e” cursiva e maiúscula seguidas vezes:
- São minhas gaivotas voando ao pôr do Sol. Livres, livres...
                Por instantes, desejei que a Delirium de Gaiman também tocasse minha alma, mas ainda era muito cedo para mim. Ou muito tarde:

- Lindas, seu Jair, lindas... Me faça um favor? Não desperdice nenhuma parede! Continue pintando tudo...

sábado, 2 de julho de 2016

Seu Jair...

CLÍNICA PSIQUIÁTRICA JOANA D’ARC

Ala Oeste/Prontuário: 449 – 0.03.5872916
Paciente: Jair da Silva Areas
Idade: 70 anos
Naturalidade: Carioca
Responsável: Samuel Areas Lima (neto)
Contato: (21) 3256-1731
Médico Responsável: Ary Campista

Sintomas: Dispersão, desligamento do ambiente, obsessão por cores, desorganização, comportamento alterado.

Exames Clínicos: Normais.

Diagnóstico: Síndrome Delirium – grau 1

Causa: Ruptura da personalidade pós-viuvez.

Resumo: Jair Areas, mulato, 70 anos, estatura mediana, viúvo, militar aposentado, começou a apresentar mudanças comportamentais em 25/06/2016.
Samuel alega que Jair sempre foi metódico, organizado, disciplinado, como fruto de uma vida dedicada à carreira militar. Há 4 meses sua esposa faleceu de câncer. Recentemente ele coloriu toda a casa utilizando balões de festa/bexigas cheias de tinta, desenhou painéis nas paredes, cobriu eletrodomésticos com colagens, espalhou brinquedos de montar e lúdicos (quebra-cabeças, peças de encaixe etc.) pela casa, comprou armas de água na internet e utiliza para atacar transeuntes em sua calçada, calçou um pé de cada calçado, pintou o cabelo grisalho de verde, escreveu pedaços de poemas nos muros da casa e na própria pele, pendurou livros no teto da sala, acordou a vizinhança com som alto às 3 horas da manhã, ligou para toda a família fazendo desde declarações de amor rasgadas até sermões longos sobre coisas de anos atrás.
Jair alega que: “A vida é muito curta para desperdiçar as paredes com branco puro! Vamos colorir tudo! Vamos cobrir tudo de palavras! Viva os poetas da vida! Viva Cecília, viva Gandhi, viva a Xuxa!”

Grau de Perigo para si e/ou outros: Zero.
Necessidade de Internação: Negativo.

Tratamento: Terapia ocupacional com atividades lúdicas, preferencialmente em grupo ou com participação da família. Manter seu estoque de tintas abastecido. Foi negociado que só usará as armas de água com permissão e presença do neto Samuel ou do terapeuta responsável, para evitar conflitos. Acompanhamento semanal com psiquiatra responsável.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Querido diário #7 ou Caraminholas na Caixola 1- fluxo contínuo de pensamentos:

Sufocada. Desliga, desliga, desliga, não religa! Impotência. Mal estar. Tudo errado. Sonhos bizarros. Vontade de gritar. Onde eu posso gritar? Carência maior que o mundo. Mente torta. Vontade zero. Vontade de nada. Completa falta de vontade. De. Viver. Vai completar um mês, não li o post. O fim da história. Não comentei. Toda errada. Desanimada. Culpada. Meio termo. Equilíbrio. 8 ou 80. Explodiu a represa. Não terminei os livros. Nenhum deles. Não escrevi. Perdi 6 meses. Frustrações. Inúmeras. Enormes. Assassinas lentas. Botão de eject? Não sou capaz. Não consigo. Fraca. Idiota. Submissa. Fracassada. Já disse tudo errado? Prisioneira. E essa cabeça? Desliga, porra, desliga! Dor. Física. Mental. Espiritual. Emocional. Ser fria... Queria. E essa roupa pra guardar? Preguiça, cansaço, não quero. Põe na pilha. Caos generalizado. Na alma. De dentro pra fora. Tristeza. Densa. Viscosa. Pegajosa. Grudenta. Me solta! TPM?! TFM... Hormônios, essa montanha russa... Será? Falta de endorfina. Falta de risada. Falta de abraço. Falta de corrida. Amanhã. Era anteontem. Qualquer dia. Quebrada. Complicada. Perdida. Não confia. Passado. Futuro. Vida de latrina entupida. Sono. Finalmente! Dorme? Só se desliga. Não desliga. Venenosa. Contagiosa. Depressão maldita. Polaridade invertida. Confusa. Sede. Não bebi 3l. Não comi direito. Me traz brigadeiro, chocolate, bolo de pote, brownies, lasanha, prensado, açúcar, gordura, conforto, compulsão. E a mente? Ligada, ativa, negativa. Necessidade pungente. Naufrágio. Cadê meu porto? Sem bússola. Sem remo. Não querer ser mais um peso. Não querer ser outra âncora. Incerteza. Insegurança. Saudade. Cortante. Tanta coisa. Tanto nada. Entraves. Barreiras. Pessoas. Problemas. E a vontade? Não volta... Tempo não faz curva. Desperdício. Vida não tem botão reverse. Só revés. Roda da fortuna. Para-raios. Olho gordo. Tá pesado. Desfavorável. Proteção. Põe pra fora. Escreve. Reescreve. Vomita. Materializa. Expurga. Exorciza. Expulsa. Se livra. Torna mais leve. Alivia. Desliga, desliga, desliga, não religa.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Querido Diário #6

Estou me sentindo tão perdida... Nas horas, nos dias, na vida... Presa no mesmo ponto, mesmo sem grades...
Eu conheço esse poço. Não tem fundo, é pegajoso. Não quero mergulhar nele.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Querido diário #5



- Você sumiu, não falou mais nada... Achei que precisasse de espaço.
- Não, eu precisava era de apoio. Mas você não perguntou.

Não consigo entender essa despreocupação, esse desapego. a minha ansiedade não me permite captar. Alguns dias de silêncio de um(a) amigo(a) com quem falo sempre já deixa meu coração batendo apertado. E o único motivo para não perguntar se está vivo(a) é se eu mesma estiver morrendo.
Não se engane, eu sou de peixes com lua em libra e vênus em aquário. Eu morro no mínimo uma vez por mês, às vezes de forma quase imperceptível, outras com muito drama. E raramente eu quero espaço. Espaço para que? Para remoer e reviver todos os problemas, reclamações e mesquinhezas de forma apoteótica repetidamente? 
Espaço é para quando estou me recuperando, não quando estou lá, mergulhada na fossa.

- O que você espera que eu faça?
- Que se preocupe. Ninguém pode viver minha vida e resolver minhas questões por mim, sou consciente. Mas pode aconselhar, pode apoiar, pode abrigar em um abraço. E, puta que pariu, como faz falta um maldito abraço apertado!

Muitas vezes tudo o que a gente precisa é saber que alguém se importa. É sentir que alguém se preocupa. Sentir implica uma atitude. Tem tanta coisa simples que pode salvar uma vida... É tão dolorida essa sensação de desimportância, de tanto faz... Nesses momentos, bastaria algo mais ou menos assim:

"Oi! Você está bem quietinha ultimamente, então passei para saber se está tudo bem. Talvez esteja produzindo muito, ou com a rotina pesada, mas pode ser que não esteja legal. Se for isso e quiser trocar uma ideia, dar risada, chorar ou precisar de colo, tô sempre por aqui, tá? Mas se preferir continuar quietinha na toca por enquanto, eu respeito. Só me avisa que está viva. Bjks".

Tão simples, né? Mas causa uma sensação tão boa, traz um calor tão importante para alma. Faz um bem que pode ser o único alento em um período muito ruim. E se a pessoa quiser mesmo espaço, ela vai dizer, com todas as letras:

"Juro que tô viva, pessoa. Realmente não estou muito bem, mas ainda prefiro ficar quietinha. Daqui a uns dois, três dias a gente troca uma ideia, tá? Obrigada pelo carinho, estava precisando disso!"

- E por que você não pediu abraço?
- Será que eu não pedi mesmo? Será? Pode ser um desejo injusto que perceba minhas dores e me ampare... Mas você foi capaz de perceber minha ausência e não fez nada, por quê?

Vai ver sou só eu que me chateio com isso. É, provavelmente seja só eu. Deve ser uma dessas coisas que a gente nasce precisando expurgar. É, possivelmente é isso.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Maldições Burocráticas: Efeito Espirro

- A... A... A... Aaatchim! - O barulho ecoou por todos os corredores, mais parecendo o retumbar de um trovão do que um espirro. As bochechas coraram rápido e o coração parecia ter parado. Era óbvio que mesmo a mais surda lagartixa-da-caverna teria ouvido.
  Antes que outro espirro escapasse, prendeu a respiração e largou o pesado livro empoeirado na prateleira mais próxima. Enquanto soltava o ar lentamente, analisou novamente a capa que tanto lhe chamara atenção alguns minutos antes, quando um fio de luz, refletido pelo imenso brinco dourado da senhora Bibliotecária, tocou sua superfície e fez reluzir o material furta-cor brilhante.
"Talvez seja feita de escamas de sereias... Ou de dragões!" - um pensamento que o motivou a ficar na ponta dos pés e puxar o livro de cima da estante mais alta, provocando uma tempestade de poeira sobre seu alérgico nariz.
  Agora, com o livro tão próximo, não conseguia ter ânimo de examina-lo. Apenas aguardava paciente a chegada de sua algoz, relembrando as palavras impressas em todos os cartazes espalhados pelo local:
NENHUM BARULHO PASSARÁ IMPUNE.
Durante a espera, a qual parecia infinita, revisitou na memória sua última longa conversa com ela há... Quando teria sido? Já havia esquecido como funcionava o relógio faz tempo.
- Olá, senhora Bibliotecária!
- Fale baixo.
- Mas estou sussurrando!
- Então sussurre mais baixo. - ele a encarou, aguardando o cumprimento. Revirando os olhos, respondeu atravessado - Olá.
- Pois muito bem, senhora... - apertou os olhos - Afinal, qual é o seu nome? Venho aqui desde que me lembre e não sei.
- Bibliotecária.
- O que você faz, eu sei. Mas e o seu nome?
- Bi-bli-o-te-cá-ri-a.
Ele bufou:
- Você deve ter um nome, todos nós temos um nome. O meu por exemplo é...
Ela estalou os dedos e sua boca havia simplesmente desaparecido da face, como se apagada por uma borracha. Ele apalpava o rosto, num misto de desespero e raiva.
- Nome não é algo que se conte, garoto! Mantenha esses lábios selados.
- huuuum huuum huuuuuum
- Affz! - estalou novamente os dedos - Diga, seu tagarela.
- Não ia te dizer meu nome meu nome! Mas meu nome que escolhi para ser meu nome!
- Ora essa! E por acaso deixou de ser seu nome só por que você escolheu? Capaz de ser seu nome mais do que seu nome, já que se identifica com ele. - ela suspirou - Aprenda, moleque, nome não se diz, principalmente aqui, onde os livros registram tudo.
- Não sou um moleque! A senhora bem sabe que envelheci, cresci, não sou o pirralho que se escondia na sessão infantil!
- Você não tem sequer um século. Cheira a leite e fraldas.
- Eu sou humano! - disse ele, exasperado - Não completo séculos!
- Oh, é verdade! O quão efêmera sua espécie é... - e seguiu para os confins da biblioteca - Que pesar... Que pesar...
- Debochada!
Estava perdido no passado (ou seria presente?) quando um forte brilho ofuscou seus olhos, causando ardor. Não precisava enxerga-la para saber que finalmente havia chegado, com seus longos brincos dourados em formato de gota, refletindo um bendito fio de luz sem origem distinguível. Porém, por mais inacreditável que pudesse ser, a bruxa não emanava raiva, apenas satisfação. Em consequência, cada pêlo de seu corpo eriçou. Era medo.


(Continua. Quer dizer, provavelmente.)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Sobre nós dois - ou quem é você na fila do pão.

Hoje amanheci pensando em nós e no que representamos para o outro após quase 4 anos.
Você é o cara que me freia quando começo a surtar, me fala outros pontos de vista e (algumas) verdades - enquanto qualquer outra pessoa passaria a mão na minha cabeça.
Que me pergunta se dormi bem, como foi meu dia.
Quem não se importa se eu sair para dançar com amigas enquanto está jogando videogame, mas também está disposto a ensinar a jogar - vencendo minha vergonha.
O cara que topa experimentar (quase?) todas as receitas malucas, veganas, naturebas, diets, lights, inventadas, descobertas que decido fazer.
Com quem divido livros, filmes, séries, e que ri da minha cara com os milhões de sustos que levo em um simples suspense.
Você é o cara que concorda com minha ideia de ter uma casa de contêiner, no meio do mato, com cama de palete, horta no quintal e banheira de passarinho no jardim.
A pessoa que conhece meu conflito entre me jogar na louca carreira de comunicação/marketing, ou jogar tudo pro alto e ser professora em algum interior do país.
É contigo que faço listas de países onde começar continuar a viver.
Quem demonstra orgulho ao me ver correndo, treinando, malhando, mas acha um exagero meu drama com o tamanho da calça.
Você é quem sorri com o rosto inteiro quando imagina uma mini branquela, e se contém porque talvez esse planeta não suporte mais pessoas.
O cara que, se fossemos pais, não me recriminaria por adotar a linha mãe francesa nem me acusaria de negligente por tomar um banho enquanto a criança chorasse em um carrinho no canto do banheiro.
Quem me faz carinho o tempo inteiro, mesmo aqueles estranhos (beliscar, morder...), basta estar do meu lado.
Que me cabe inteira em um abraço.
Você é o controlado, super organizado que faz 100 dilmas renderem 1k - o que equilibra minha mão aberta sem limites.
O cara pé no chão.
Com quem compartilho meu amor e desespero pelos animais.
Quem se preocupa se estou com frio, me apóia nos momentos sombrios e está sempre a um clique de distância.
A pessoa que encara a tv verde, o dia quente (se não puder evitar, hahahaha), o circuito de arvorismo, a maratona de Star Wars, a loja de melissas, os embates e as gargalhadas.
O cara que se entristece com a minha tristeza, que me olha e me enxerga do avesso, que torna as minhas metas mais claras e minhas conquistas mais valiosas.
Quem desce primeiro do ônibus e oferece a mão para me ajudar a descer, por cuidado, por carinho.
Meu muro de lamentações sempre ouvindo todas as minhas lamúrias e reclamações do mundo sem se emputecer com isso (ok, de vez em quando rola um tédio ou uma impaciência justificável pela repetição).
Você é meu porto. Minha casa. Meu ninho.
Temos nossas diferenças. Não é um mundo inventado, cor de rosa. Nosso mundo é colorido, inclusive de preto e cinza. Isso prova que é de verdade. Nós cedemos um pelo outro, sacrificamos anseios, frustramos expectativas. Estarmos juntos é uma escolha diária, como com qualquer casal. A qualquer momento pode-se mudar de ideia e seguir caminhos independentes.
Semana passada, ontem, hoje, nos últimos 3,5 anos, eu escolhi ficar. E sou muito grata ao Universo por ter feito a mesma escolha e me deixar permanecer.
Você não me completa, visto que somos pessoas inteiras. Você me transborda.
"Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: algo do céu te mandou um presente divino - o amor".
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Está preparado para o turbilhão de pensamentos e sensações?

- O que você está fazendo aí na penumbra?
- Escrevendo... Se não escrever, eu explodo.
And every demon wants his pound of flesh...

Talvez, se você chegar aos 30 com todos os seus grandes anseios de infância/puberdade/vida saciados, ser balzaquiana seja só mais uma etapa e não te afete em nada. Você só vai precisar ativar a expansão do jogo da vida e semear novos sonhos no seu coração. Não é bem o meu caso.
Conheço pessoas abençoadas que conseguiram esse feito. Não desejo a história delas para mim, não somos a mesma pessoa. Porém me ressinto do patamar que alcançaram. Por que não eu, sabe?
Sei, escolhas.

Em diferentes momentos da minha vida, eu projetei uma Elaine. Eu a imaginei como se já existisse, narrando pensamentos e decisões no passado, como ações já efetivamente realizadas. Talvez seja esse o meu engano: falha grave de PNL.
E eu sinto falta de tanta coisa... Tantas memórias construídas só no terreno da imaginação, nunca trazidas para a realidade. Há tanto desperdício de energia na história da minha vida!
Eu fui destruída e reconstruída tantas vezes, fiz tantas expedições tentando me encontrar enquanto me escondia. Tem tanta cicatriz, tanta mágoa, tanta poeira escondida embaixo do meu tapete. E eu fico repetindo que tudo isso me fez forte. Será? Se sou forte, por que a insegurança? Por que o medo?
Eu melhorei bastante, fato. Tenho orgulho de como estou hoje, principalmente quando olho para trás e vejo de onde vim, o quão doloroso foi o trajeto. E o quão feliz. Sempre me considerarei uma pessoa feliz, provavelmente porque a ideia de ser uma alma infeliz é aterradora. Ser infeliz soa como uma maldição, não admito mais drama do que o habitual. Acredite, tenho muito drama na minha caixola. Consigo tornar qualquer situação banal em uma tempestade de areia, machucando cada pedacinho de mim no processo.
Estou perdendo o fio da meada, pra que lado fica o norte mesmo?
Eu ando com raiva. Pesada. Bagunçada. Eu tenho lembrado de fatos do meu passado, revivido momentos, sofrendo de novo e me perguntando o que fiz de tudo isso. O que fiz com meus outros pedaços? Onde eles se encaixam?
Não, não é a mesma coisa que aconteceu há 12-13 anos atrás, quando a pessoa que me encarava no espelho era completamente desconhecida. Eu me reconheço. Sinto o peso da idade na minha existência. Eu consigo vê-lo na textura da minha pele, no formato de meus dedos, no meu olhar. Não considero uma relação negativa com o tempo, mas a consciência de que ele passa e preciso ser mais esperta que ele. Não é fácil. Mas eu sou eu.
É só que tem esse pedaço de mim que anda com muita vontade de sair. Quanto mais tempo fica trancado, com mais raiva fica. Estou carregando um Hulk na alma, pronto para dar um smash na realidade.
O fluxo de pensamentos também está enlouquecedor. Exige muita concentração transformar a teia pulsante em textos. A falta de prática tem uma grande parcela de culpa... Há quanto tempo não escrevo? Há quanto tempo não liberto meu espírito e o deixo voar entre caracteres e dizeres?
Não entenda essa bagunça aqui errado. Eu subi mais degraus e tracei mais metas na minha vida profissional nos últimos 2 anos do que na minha vida inteira. Eu tenho aprendido com avidez e me deliciado com os ensinamentos e descobertas. Mas ainda não sei responder qual é o meu objetivo de vida, profissionalmente falando. Eu ainda penso em uma casa com quintal, varanda, bichos, crianças correndo, colorida, cheia de alegria, cumplicidade, união quando me fazem essa pergunta. Ainda há mais romance em mim do que lógica.
E eu encontrei uma pessoa diferente. Uma pessoa fora da caixa, do uniforme. Um ninho. E já são quase 3 anos abrigando um ao outro, nos melhores e piores momentos. Aparando arestas e seguindo firme na corda bamba do amor. Eu não trocaria essa relação por nenhuma outra - me torna uma pessoa melhor diariamente.

Mas ainda tem esse Hulk preso no peito. Querendo mais. Faminto por mais. Desesperado por sair. Por romper grilhões. Impaciente, desgostoso, selvagem. Revirando meu cemitério de sonhos, ideais, grandes anseios, memórias doridas... Rasgando tudo. Cobrando tudo. Como um professor na prova final, afirmando que a próxima fase só vem depois que eu acertar toda a prova, todas as questões.
Eu tenho algumas dúvidas. Tenho? Ou me agarrei a isso com medo de atravessar o portal?
Eu tenho muitas pendências. Tenho? Se são minhas, seguirão comigo aonde eu for, não? Até que eu as resolva.
Os 30 estão chamando todas as minhas frustrações, toda a minha existência, todo o meu pesar pro ringue. Tudo que tenho é um par de luvas de boxe. Eu não sei lutar. Eu não tenho escolha. É a década de encaixar todos os meus pedaços perdidos. A porrada é intensa. Preciso proteger minhas conquistas, meu porto seguro, enquanto luto. Não há escapatória.
Não se engane, a crise dos 30 existe e pode tirar o seu sono. Te asfixiar. Não irá embora com o próximo aniversário. Ela chegou com o retorno de saturno e vai questionar cada micro segundo da sua vida até você se aprumar. São 10 anos de conflitos internos, guerras pessoais e novas conquistas. É difícil pra c******. Não se entregue, não desista. Faça o seu melhor e vá além de sobreviver: viva.

...it's always darkest before the dawn