quinta-feira, 18 de maio de 2017

Memórias de I: Matemática - Final


     Veja a cena: eu vestida com meu belo uniforme, pulando um muro, e caindo certinho do outro lado. Bonitinha. Tinha sido um salto perfeito. Imaginou? Agora esquece tudo isso. Eu até cheguei firme do outro lado, caí agachada, dobrando os joelhos para amenizar o impacto. Três coisas deram erradas: 
  1. O barulho do meu suposto salto; 
  2. O barulho do relógio, programado para alarmar sempre que o inspetor tivesse chegando; 
  3. E a mais importante: os barulhos não seriam nada se eu conseguisse sair dali com a mochila rapidamente. O inspetor, intrigado, iria subir no muro e não veria nada. Acontece que, quando quis levantar, senti meu lindo tornozelo me dizer... 
- Ela quebrou o pé. Vou ter que engessar. 
- Obrigada, Dr. Fábio. Sorte sua eu estar de carro para te socorrer! Sorte também a escola ser próxima a um hospital público e o inspetor ter te ouvido cair! - falou a diretora, com seu olhar seboso. Ela já havia formulado um belo relatório. Resumo das transgressões de normas do colégio que eu havia cometido. Mamãe logo estaria chegando. E quanto mais a diretora falava a palavra sorte, mais eu desejava ter sido azarada... 
     Não demorou meia hora para mamãe estar na recepção do hospital ouvindo as barbaridades que eu havia cometido. Papai estava sério, analisando as minhas radiografias e conversando com o médico na sala de emergência. Tive medo do castigo. Mas houve um acordo. Era final de semestre e eu sempre fora uma boa aluna. Então cumpriria detenção no colégio após as aulas e o resto da punição seria responsabilidade dos meus pais, em casa. 
     Já no carro, abrigada no banco de trás, fiquei ouvindo os sermões da mãe, de que ela não havia tido oportunidade de estudar e eu não sabia aproveitar a minha. Papai olhava para mim com cumplicidade, olhar risonho. Não dizia uma palavra. 
     Mais tarde, de noite, uma amiga, seu nome é Dalila, esteve em minha casa. Foi ver o estrago que eu havia feito em minha perna e me passar a matéria do dia. Entrou no quarto excitada com minha aventura. Naquela altura do campeonato, todos já sabiam: 
- Caramba!! Posso escrever no seu gesso?
- Desde que não seja em rosa...- Não entendo essa sua implicância com o rosa, I. Deixa pra lá!! Me conta mais, vai...
- ...Onde eu estava? No castigo. Bom, vou ficar presa nesta casa por um mês com a vó Docinho. Nada de sair nos fins de semana. 
- Hahaha! Sozinha com sua avó? Você vai enlouquecer. Ou vai aprender a arrumar casa, lavar e passar roupa, e cozinhar de perna pro alto! Hahahaha! Posso ver a cena!!! 
- Ri! Ri mesmo da desgraça dos outros! Agora vê! Eu tô aqui aturando a velha esclerosada e uma amiga da onça enquanto meus irmãos e meus pais estão comendo minha banana split e meu cheddar!
- Por que você quis fugir? Ia encontrar algum carinha? Algum namorado? Se você estiver namorando e não tiver me contado! I... 
- Larga de ser besta! Eu fugi daquele treco que se diz professora de matemática!
- Hahahahahaha!
- Lila, a piada não foi tão engraçada assim não. Pra que tanta gargalhada? 
- Não tô rindo da piada. Tô rindo de você! A professora de matemática pediu demissão... - ela começou a falar com cautela quando percebeu que eu estava ficando pálida - Alegou motivo de doença. Tinha um atestado dizendo que ela estava com estafa mental, e que precisava de um spa para o cérebro. Estava ficando mais maluca por causa da matemática. E com depressão, fazendo um caro tratamento psicoterápico. Foi isso que a diretora contou... - ela olhou para mim, assustada com meu olhar vidrado e a espuma que saia da minha boca - A nova professora se chama Teresa Cristina e é uma deusa! Fantástica, você teria se apaixonado por ela! Haha! Vê se pode... - falou, enquanto caminhava até a porta do quarto, procurando por minha avó - ... ela já era maluca, imagina agora que está com estafa numérica. Será que foi por álgebra ou por geometria? 
     Quando Lila terminou de falar, eu soltei um grito histérico e agudo. Ela estava estática. Deu meio passo para trás, batendo com as costas na parede. Até a surda da avó Docinho escutou meus gritos, e achou que fosse por dor na perna. Veio com tanto remédio até meu quarto que até hoje eu não sei qual me sedou. Quando acordei Dalila, ou Lila, tinha ido embora, após ter passado toda matéria a limpo para mim. Aproveitou que eu havia dormido para escrever com uma caneta pink no meu gesso, um ridículo rosa choque. 
     O papai estava sentado ao meu lado na cama. Perguntava se eu estava bem. Fiz que sim com a cabeça. O pai me explicou que, se eu quisesse, poderia procurar uma psicóloga e fazer aulas de reforço em matemática. Eu consenti. Latejando na minha mente, estava o sorriso sarcástico da discretinha, que, apesar de estar doida varrida (e espero que tenha morrido disso), havia saído vitoriosa de nosso último embate (morrido não. Tomara que esteja viva com os números psicopatas a perseguindo, de preferência por toda eternidade).
     Nessa história tem uma coisa que não consigo entender até hoje: como é que alguém consegue idolatrar Pitágoras? Ou qualquer outro doido que tenha se dedicado a matemática...


*Fim*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons.)


Post Script: A autora deixa claro que, apesar das dificuldades em se relacionar com a matéria, nada tem contra a matemática em si. Nem contra profissionais da área.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Memórias de I: Matemática - Parte 6

     Quando saí do banheiro a minha turma já estava quieta. Tomei o cuidado de passar bem longe da sala. Segui, devagar, até o vestiário feminino. Ao entrar reparei nas bolsas jogadas sobre os bancos no centro do vestiário. Não havia ninguém na quadra, daria para ouvir qualquer ruído vindo de lá, até a respiração de uma formiga. Também não havia ninguém no gramado, caso contrário a janela não estaria aberta. "Deve ser natação...sorte que a piscina fica do outro lado!" 
     Pulei a janela com cuidado. Faltava pouco. Percorri o estacionamento, agachada, me escondendo atrás dos carros. Não foi difícil chegar até o murinho atrás do prédio do primário. Complicado foi cronometrar o tempo que o inspetor levava para passar em frente ao murinho, dar a volta no prédio e passar pelo murinho de novo. Desde a fuga do tal Zeca, o muro estava sendo vigiado. Eu tinha que dividir o tempo de uma maneira que ele estivesse longe o suficiente para não me ouvir pular o muro. Mas não tão longe a ponto de já estar próximo ao muro de novo. E tinha que sobrar tempo hábil para eu pular ou desistir de pular o muro, caso houvesse algum problema. 
     Examinei o bendito muro chapiscado com muita atenção. Parecia um especialista em artes examinando um suposto quadro de Van Gogh. Feliz, sonhando com uma imensa banana split (pena que não façam mais...), batatas francesas (batatas fritas, seu mal-informado!), e um delicioso hambúrguer com queijo cheddar (advinha de onde!), joguei a mochila para o outro lado e fiquei escutando ela caiiiiiiirrrrr... 
- Pi-pi-pi-pi-pi... 
     "Mas que raio de Pipi é esse? Barulho cha..." Não completei a frase porque já estava me enfiando atrás de um carro. O barulho era o alarme do relógio, avisando que o inspetor estava voltando. Observação: o estacionamento tinha uma parte de frente para a parte de trás do prédio do primário, ou seja, do murinho. Entendeu? Seja criativo. 
     Tudo já estava calmo, e era a minha vez de pular para a liberdade. Livre da discretinha e seus conceitos de matemática! Atravessei o pequeno beco que ligava o estacionamento ao murinho, apoiei o pé sobre um fino rodapé de ardósia, apoiei com as mãos, as mesmas com que dei impulso, e vualá (não sei francês, mas sei que você entendeu) um terreno vazio a minha disposição. 
     Sentada sobre o muro me dei conta de um detalhe. A parte de fora era mais alta que a de dentro, ou seria mais baixa? Bom, o que importa é que o chão estava mais longe. Senti um frio na barriga. Medi a mim mesma. Senti o frio de novo, o relógio começou a apitar... "É agora ou nunca. Liberdade ou..." Eu me joguei.

*Continua*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons.)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Memórias de I: Matemática - Parte 5


    "Nossa, como fede!! Sempre tive a curiosidade de entrar no banheiro masculino, só que não nessas condições!" 
     Pus a mochila sobre a pia e guardei o bloco lá dentro. Fiquei observando os espelhos, os mictórios (não sabe o que é? O local onde homens deveriam fazer xixi. Sim, porque a maioria urina no banheiro todo, menos no mictório), as divisórias de ardósia que separavam os vasos sanitários. E estava examinando a porta de uma dessas cabinas quando ouvi risadas e passos próximos ao banheiro. Só deu tempo de pegar a mochila, entrar dentro de uma cabina e fechar a porta.
     Os garotos entraram, uns três, planejando alguma grande sandice. Falavam rápido, discutindo sobre pavios e malvinas, talvez uma bomba...não sei!!! Fiquei rezando para que não me descobrissem. Foi quando um deles começou a contar uma história: 
- Tu viu, cara? 
- Vi o que, Bart? - Bart era o apelido de um deles. 
- O Zeca pulando o muro! 
- Como é que é? - falou um outro. 
- Verdade! Você não me contou essa história! 
- Esqueci! É que o cara tá suspenso desde semana passada! 
- Também, o infeliz já num tá reprovado?
- Tirou nota baixa em tudo! - o Bart de novo - Mas deixa eu contar... Ele e um professor discutiram em sala, nem lembro porque cargas d'água! Sei que o professor o mandou para a diretoria. Só que o cara nunca apareceu por lá! Zeca atravessou o corredor lá de trás e foi até a entrada do vestiário feminino. Num sei se tu já percebeu que lá tem uma janela que dá para o gramado... 
- Sei sim! Quando tem futebol eles trancam a janela, para gente não ver a mulherada! 
- Pois é! Se você pular aquela janela, você não passa na frente da diretoria, e corta caminho! É mais rápido que passar pela quadra. O Zeca pulou aquela janela, atravessou o gramado, deu a volta no estacionamento e pulou aquele muro atrás do prédio do primário. Aquele que é mais baixo.
- Tá de brincadeira?
- Tô nada! Foi a maior zoeira! Quando o professor perguntou a diretora se o Zeca estava na suspensão deu maior confusão. Ela mandou chamar os pais dele e passou maior sabão! Tu acha que o cara não voltou ainda por quê? Suspensão por quinze dias, isso porque a mãe dele apelou muito. Quem me contou foi o próprio Zeca. Ele mata o tempo lá na pista de skate!
- A hora que descobrirem como ele fez isso... Fuga do colégio vai virar epidemia! Putz, Bart, vamô chama esse cara pra ajudar a gente! Ele já está encrencado mesmo!
     Fiquei esperando a resposta do Bart. Contudo o silêncio durou mais de cinco minutos. Abri a porta e já não havia ninguém no banheiro. Pus a mochila sobre a pia e me encarei. Tinha um sorriso de satisfação nos lábios. Já sabia como sair do colégio e estava me sentindo o Rambo. Estaria a sorte sorrindo para mim? 

*Continua*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons.)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Memórias de I: Matemática - Parte 4

     A minha mente trabalhou rápido. E tão rápido quanto imaginava os castigos e advertências, formulava uma desculpa:
- Olá, senhora Maria! Como vai? - disse enquanto comparava o nariz dela com o nariz de um porco, e percebia que a estampa de seu vestido parecia com um lençol que tínhamos em casa, herança da bisavó Mercedes, que até avó Docinho achava horroroso, e o havia transformado em comida de traça, nem doar para os pobres a avó quis, disse: "Eu não gostaria de ganhar uma foto do demo, pra que vou dar o lençol dele pra alguém?". Acho que é por isso que nunca apresentei a diretora para avó. Se ela já não queria a foto, que dirá ver o demo em pessoa...cruz em credo!!
     A bruaca me respondeu com um sorriso parecido com o da Vandinha Adams no filme em que o tio Chico casa com uma loira oxigenada que tenta matá-lo (salvo engano, é "Família Adams 2"). Foi logo me perguntando porque eu estava saindo da escola faltando tão pouco para o sinal tocar. Pensei em dizer que nem havia entrado ainda. Porém seria pior. Então argumentei que precisava de folhas para o fichário. E não adiantou nada. Ela respondeu que havia folhas no bazar do colégio, e foi comigo até lá. Comecei a entender que assistiria aula, querendo ou não...
     Chegamos a um bazar lotado de alunos. E que não tinha nem meia folha de fichário para vender. Será que a sorte estaria se lembrando de mim? Iria ver a cor do céu e ouvir o barulho dos carros que passavam na rua. Distanciei-me, sem conseguir conter o sorriso, e novamente ouvi aquela voz de Graúna:
- Não há problema, existem alguns blocos na diretoria. Venha.
     Argh!!! Como queria esganá-la! Tinha que pensar rápido...A diretoria era composta por uma recepção, uma sala de espera e a sala da juíza carrasca. Na porta, uma placa escrito "DIRETORA", mas bem poderia ser Srª. Sexta-Feira 13 ou Freddy Grugger Filha (é assim que se escreve?!). Ela quis que eu entrasse em sua sala, quase soltei uma gargalhada. Qual o ratinho maluco o suficiente para entrar na casa da cobra com ela em casa?
     Fiquei aguardando na recepção, enquanto ela foi buscar o bloco. E pude ouvir, nitidamente, o ensurdecedor sinal do colégio. Lá estava eu, andando pelos corredores vazios, escutando a algazarra das diversas turmas abrigadas nas tantas salas de aula, fazendo festa para os professores. É claro! A minha turma era a única que tinha aula de matemática na Quarta-feira.
     Comprimi o bloco contra o corpo. Estava a dez passos da porta de minha sala. Pelo barulho a professora não estava em sala. O que era um alívio para os meus colegas, para mim era um risco. E se esbarrasse com a discretinha no corredor? Senti um calafrio percorrer minha espinha, um arrepio da cabeça aos pés. Olhei ao meu redor em busca de um abrigo. E lá estava o banheiro...
    Corri em direção ao banheiro feminino, pus a mão direita na maçaneta da porta. Um alerta, estilo neon Las Vegas, começou a piscar dentro da minha cabeça: "E se a professora estiver no banheiro? Não seja paranoica, existe banheiro na sala dos professores! Mas e se ela estivesse vindo para a sala quando sentiu uma dor de barriga? Melhor não arriscar." Virei em direção ao corredor, não poderia seguir por ele: "O que faço? O que?"
     Olhei para o lado e lá estava a porta do banheiro masculino. Não pensei, entrei.

*Continua*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Memórias de I: Matemática - Parte 3

     Apesar de minha imaginação fértil e de minha fé, logo percebi que nada iria me salvar da professora discretinha. Não aconteceria um milagre. A tia Senira tinha feito novena para casar quando tinha dez anos de idade. E Santo Antônio só realizou o milagre trinta anos depois. Então não seria em duas horas de chororô que eu conseguiria o meu. Se bem que a avó Docinho pediu para a morte levar o marido da tia Senira embora uma vez só, e não demorou nem uma semana para o tio Ubaldo ser enterrado (coitada de tia Senira, que não ficou nem um ano casada...). O acidente que eu havia idealizado, ou qualquer um do tipo, também não aconteceria. Por quê? Eu não tinha tanta sorte assim. Então estava decidido: eu iria fugir.
     O pai se distanciava com o carro. Ainda deixaria Henrique na faculdade. Nós, Joaquim e eu, estudávamos no mesmo colégio, em prédios diferentes. E ele já havia corrido em direção ao dele, enquanto eu acenava calmamente, dando tchau. Quando não conseguia mais ver o carro do pai, encarei o prédio de cinco andares e abri um sorriso debochado: "Não sei para onde vou. Mas, matemática eu não vou estudar".
     É engraçado. Quando somos novinhos tudo é meio cinematográfico, dotado de uma mágica e um mistério denso. Como se fosse uma continuação de uma dessas séries americanas. E, naquele momento, enquanto encarava o prédio e me preparava para fugir, me senti meio princesa Léa de "Guerra nas Estrelas" (será que alguém se lembra desse filme?). A fuga parecia uma cena dessas em que a mocinha se prepara para dar o troco ao bandido no melhor estilo "She-ra" (disto alguém deve lembrar.). O intrigante é que, por muitos momentos, não assistir aula de matemática pareceu impossível. E, agora, estava assim: tão próximo e tão fácil...

     Porém, já que alegria de pobre dura pouco, quando me virei e comecei a caminhar na direção do ponto de ônibus, escutei uma voz seca chamar meu nome: a diretora.

*Continua*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons.)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Memórias de I: Matemática - Parte 2

     Comecei a imaginar as rotas de fuga. Passar mal nem pensar. Teria que ficar em casa com a velha Docinho. A mãe dava aula num colégio municipal. Só se eu não fosse para casa. Mas, para onde eu iria? Passei tanto tempo pensando em como iria me livrar da matemática que, quando dei por mim, já estava arrumada e sentada dentro do carro do pai, enquanto a mãe enchia os ouvidos dos meus irmãos com recomendações. Era tarde. A escola me esperava.
     Foi a pior volta de carro da minha vida. Tentei acreditar que a professora tinha sofrido um acidente. Nada muito sério. Ela teria escorregado no banheiro, batido com a cabeça na privada, caindo de boca em um...sabonete. Quebraria no máximo duas unhas, dez dedos das mãos, e o nariz...Coisa pouca. O suficiente para ela não poder dar aulas por três anos, porque em três anos eu me formaria: "Se Deus quiser! Se não, eu devo Ter cometido um pecado muito grande!"
     Dentro do carro o pai ia cantarolando uma música de um tal “Trio Parada Dura”. Henrique, o mais velho, sentado no banco do carona, ouvia num walkman ligado no último volume um barulho chamado “Ramones”. O terceiro, Joaquim, ia atrás comigo. Passava a viagem roendo um biscoito recheado de chocolate. Roendo não, ruminando. Porque o biscoito durava tanto, dava a impressão que meu irmão o mastigava, engolia e depois regurgitava para roer de novo.
     Era assim sempre. A mamãe deixava o caçula, Luís, na creche. O pai nos levava. E lá ia eu, tentando me organizar (sempre fui uma pessoa enrolada). Na verdade aquela quarta-feira foi uma grande exceção. Eu não dava a mínima importância para a bagunça que minha mochila estava, nem para o fato de estar com as meias do avesso.
     Tudo o que eu queria era um milagre: o fim da matemática.Dentro da minha cabecinha (juro que era uma cabecinha pequena e bonitinha, apesar de me chamarem de cabeça de paraíba) conseguia enxergar o senhor Presidente...o Papa...o próprio Jesus Cristo, aquela figura que me intrigava, preso à cruz e pendurado na parede da igreja (isso é outra história), movendo os lábios dizendo, em voz solene, arredia e grave (papai dizia que a voz de Deus era como um trovão, e já que na catequese Dona Dulce explicava que Jesus era Deus Menino...): “É um grande pecado praticar, ensinar, pensar matemática. Está proibido, até mesmo, pronunciar este nome. Aquele que o fizer será julgado por Mim, sob pena do Inferno.”
     Ah...Como seria bom! Tinha a certeza que todos iriam concordar por dois motivos: todo mundo teme a Deus, e ninguém quer passar as férias eternas no inferno.

*Continua*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Memórias de I: Matemática - Parte 1

     Hoje eu fiz como faço todas as manhãs: abri as janelas, liguei o som, me alonguei, olhei o sol... Sol?! Mas que Sol? O céu está mais cinzento que fuligem...Faz lembrar quando eu tinha meus treze anos e estava começando o colegial. Naquela época o Rio de Janeiro podia ser confundido com outro Rio, o Grande do Sul, de tão frio que estava. Ao cair da noite um denso nevoeiro cobria boa parte da cidade, de um jeito que, mesmo que o prefeito colocasse o Sol para iluminar o Cristo Redentor, não conseguiríamos ver nem os degraus da escada. De manhã cedo, entre seis e sete horas da manhã, ficava tão escuro quanto a noite. Era frio, frio mesmo.
     O despertador havia tocado por uns dez minutos naquela manhã escura de Quarta-feira. E eu não havia se quer me mexido na cama. A mãe veio com aquele jeitão dela: cabelo desgrenhado, cara amassada, hálito de urubu, robe rosa acolchoado e uma vassoura de piassava nas mãos. Parecia que ia varrer a gente da cama com seus gritos estridentes. Digo a gente porque não era somente eu quem não acordava com o despertador. Meus irmãos, até o meu pai, não acordavam também.
     Depois do “espetáculo já cedo”, era assim que meu pai chamava a vassoura da mãe, tomávamos o café da manhã. O pão francês de Seu Branco, que a cada dia aumentava de preço e diminuía, na mesma proporção, de tamanho. O café com leite. O choro chato do caçula com fome, enquanto o terceiro de nós oferecia a mamadeira.
     Naquela casa grande, de um pavimento e toda pintada na cor gelo, morávamos: meus três irmãos, meus pais, a avó Docinho e eu. Pois é, o nome da minha avó era Docinho, mas de doce ela não tinha nada. Começava o dia de cara amarrada e jeito de general, distribuindo as tarefas domésticas entre nós. Meu irmão mais velho vivia insistindo para que a mãe contratasse uma empregada. A mãe respondia com uma pergunta: “Pra que se vocês dão conta?”.
     Voltando a minha história, era uma manhã escura de Quarta-feira. No primeiro tempo aula de matemática, com a professora mais discreta do mundo. Seu vestido branco com enormes peixes coloridos e a sandália verde-lima eram a sensação do colégio. Mas o seu jeito de dar aula era uma tortura. Creio que não gosto de matemática por conta dela. Imagine a minha vontade de assistir aquela aula. Precisava dar um jeito de fugir.

*continua*

(Texto de 1999, protegido por Creative Commons.)

domingo, 2 de abril de 2017

Pausa para Amélie & Mihaela

The Tell-Tale Heart by Kaethe Butcher.

- Amélie, você ainda me ama?
- Mas que pergunta é essa?!
- Uma pergunta séria.
- Miha... Eu... Por que essa dúvida? Eu te magoei?
- Não...
- Mas?
- Mas muita coisa aconteceu, Lie. Quando nos conhecemos eu te vendi uma pessoa, depois de todos esses anos você sabe que aquela pessoa não existe. Não 100%. Eu... Às vezes... Nem eu sei lidar comigo!
- Mas isso está claro desde os primeiros meses! Hahahaha
- Hmpft!
- Mihaela, não te vejo assim há muito tempo. O que está havendo?
- Não sei explicar... Eu só preciso ouvir.
- Mesmo sabendo a resposta?
- Eu sei que é ridículo. Mas sim, eu preciso ouvir mesmo acreditando que sei a resposta...
- Isso é novidade.
- Tudo muda, às vezes leva milênios, outras vezes segundos, em menor ou maior grau, em essência ou comportamento, não importa. Mas tudo muda. E de vez em quando eu preciso ouvir, eu preciso saber, se você ainda me ama... Se ainda tem borboletas no estômago! Se ainda arde de desejo... Porque sentimentos também mudam, e nós passamos por muita coisa, a bah sempre disse que a vida muda a vida como a forja transforma o...
- ... Ferro: na marra.
- Sim... Muito calor, muita marretada, muito frio. Eu sei que gestos dizem tanto ou mais do que palavras, mas gestos também mudam e hábitos também são gestos. E eu não costumo dizer isso tanto quanto deveria, mas...
- Respira, Miha! Calma... Vem cá... Eu já entendi, também me sinto assim às vezes. As pessoas dizem que se não amassem mais não estariam juntas, mas a verdade é que elas não sabem nem se perceberiam.
- Sim...
- Então, por hoje, chega dessa angústia na nossa cama. Eu sei que você vai partir de novo.
- Sabe?!
- Miha, nós duas sabemos que isso ainda não acabou. E eu sinto muito! Eu não queria que você partisse de novo! Ainda mais mexida desse jeito!
- Sniff...
- Mas é quem você é. Essa força da natureza. Orvalho e furacão. E eu amo você, mon'amour... Muito! Ainda com a mesma força daquela primeira vez que disse isso.
- Eu também amo muito você... Tanto que dói... Que saudade senti desse olhar... Serviço de quarto?
- Você não tem um vôo para pegar?
- Alô, serviço de quarto...
- Não... Ainda faltam algumas horas pra isso... Alô! Quero fazer um pedido.

 •   •   •
- Bem-vinda de volta!
- Obrigada pela cobertura, Chico!
- Sem problemas, minha amiga. Fique tranquila, Amélie também já chegou no abrigo.
- Sim, recebi o check-in. Muito obrigada por isso também...
- Como ela está?
- Mais forte do que nunca.

Silêncio.

- E como você está?
- Mais frágil do que jamais pensei que poderia ser...
- Mihaela...
- Estou exausta da viagem, meu amigo, vou tomar uma ducha. Você avisa aos outros que já cheguei?
- Okay...

segunda-feira, 27 de março de 2017

Querido diário #8

Nenhum ambiente é mais inóspito do que dentro de mim nesse momento.
 A Sombra retornou para a mente.
 Na verdade, desconfio que nunca saiu, apenas se escondeu sob o tapete...

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sobre escrever 3

Há quem escreva por obrigação. Quem tenha transformado a escrita em ofício – como eu desejo isso! Tem os que consideram escrever uma arte ou chamam a escrita de vício. Para mim, escrever é liberdade.
Minha escrita é viva. Voraz. Não há grilhões capazes aprisiona-la. Faz parte de quem eu sou desde sempre, elemento essencial da minha identidade – se passo muito tempo sem escrever, me perco, sequer me reconheço.
Quando preencho o vazio da tela ou da folha com palavras, eu abro portais para outros mundos existentes apenas na minha alma. Onde inúmeras versões de mim mesma sopram ideias em meus ouvidos, ansiando ganharem voz através de meus dedos. É uma sensação única materializar seus sussurros em frases, contos, poemas. Mas é torturante quando decidem me contar as histórias mais interessantes enquanto estou embaixo do chuveiro – acontece com certa frequência.
Percebo agora se tratar de uma relação contraditória, tendo em mente o quanto escrever se tornou uma necessidade ao longo da minha existência. Talvez se pergunte como posso afirmar que a escrita me liberta sendo tão dependente dela. Bom... Da mesma forma que pássaros dependem de suas asas para voar, é a melhor explicação.
“E ses”, devaneios, confissões, escrevendo deixo vazar tudo que exacerba dentro de mim. E, veja bem, essa não é a melhor parte. O mais impressionante na escrita é o poder de tocar outras pessoas. Um escritor pode entrar na sua casa, deitar em sua cama e te transportar mesmo para os lugares mais inóspitos – ah, não se engane, admita para si mesmo que irá de bom grado! Boas histórias te apresentam ideias, pessoas, lugares, criam pontes entre seus sentimentos e as palavras. Sabe aquele pensamento: “eu poderia ter escrito isso!”? Quem nunca?

É a terceira vez que escrevo sobre minha relação com esse verbo tão querido: escrever. Essa definição nunca muda. Escrever, para mim, é ser livre de verdade.